PÁGINA UM

a little bit of

Eu peço desculpas por isso – precisava de um lugar para repousar minhas ideias. Tentei outros caminhos, me reinventei em novos amores, teimei em ignorar o que me atravessava. Mas o coração é quem manda quando se trata da minha tentativa de arte, e é por isso que estou aqui.

E também pelo fato de que é mais fácil reunir tudo num lugar, do que me despedaçar para caber em vários outros. Veja bem: tentei newsletter, medium e, até, páginas de diário. Logo eu, que odeio escrever sobre mim. Mas não era isso que precisava e talvez não seja disso – desse blog – que preciso, mas tenho que continuar tentando.

Não vou dizer que faz tempo que não escrevo esse tipo de coisa – não seria verdadeiro, ainda que não seja mentira. É estranho se colocar no meio quando a vida toda sempre fui cheia de opinião. Não prometo regularidades e produtividade – tenho uma vida fora das páginas para administrar, uma profissão, uma segunda graduação e vários projetos que comecei pelo caminho. Escrevo livros. Leio histórias. Reviso textos. E, nas horas vagas, ainda acho tempo pra reclamar da vida.

Geração 90, desculpa: não tenho como impedir.

É por isso que estou aqui no blog, mesmo que textos tenham feito mais sucesso no Instagram. Eu quase reativei meu antigo site, mas não sou mais aquela que fundou o Uma Dose de Café e não seria justo tentar angariar os mesmos leitores, para uma escrita que se modificou tanto nos últimos tempos. Li outras coisas. Descobri novos sabores. Testei diferentes formas de contar a mesma coisa. Escrevi romances – decidi vender um deles. Me formei em Psicologia para decidir que não queria seguir a área de mestrado, apesar de adorar estudar. Iniciei o trabalho na clínica no mesmo momento que me matriculei numa segunda graduação, dessa vez Letras – só para a Fernanda de hoje rir da Fernanda aos dezessete anos, que tinha certeza de que nunca chegaria no ponto em que decidiu estar.

Mudei o corte de cabelo sem cortar a minha essência, mas ampliei meu perfume para seduzir outras coisas. Fiquei com saudades de mim e agora estou aqui. É estranho sentir saudade da gente mesmo, quando moramos conosco a vida inteira, mas acontece quando há vários caminhos inéditos para percorrer e você nunca foi boa de direção para decidir pra onde ir. Aí eu fico aqui: escrevendo. E dou sorte que do outro lado tem você, me lendo. E nesse intercâmbio de ideias prometo ser o mais sincera que meu eu lírico permitir, mesmo quando não falar de mim. Você vai me ler nas entrelinhas, porque estou em todos os lugares que não pareço estar – especialmente nas pausas e nos pontos, que provavelmente te fará se perguntar por que não coloquei vírgula.

É que sou assim, se você ainda não me conhece. Nunca gostei de vírgulas. Nunca gostei do meio. O começo me cativa e o final me seduz – o ponto é muito melhor que as reticências e é por isso que nunca me suspendo, ainda que nem sempre me acabo.

De resto, não se surpreenda. Vou falar sobre aquilo que me der na telha, mas frequentemente sobre o Nada. Gosto do vazio que tenho no peito e, principalmente, gosto de manuseá-lo com minha mão. Ás vezes, dá um poema. Outras vezes, dá angústia e aí consigo mais um poema. Mas sempre termina em alguma coisa e eu, que adoro finais, não consigo ignorar.

É por isso que estou aqui.

E talvez seja por isso que você esteja aí.

Fora o que foi dito, é como aquela música que eu nem gosto tanto: é só isso. Acabou. Boa sorte – para nós. E principalmente para mim, para conseguir levar esse projeto de blog até o fim.

Fernanda Campos é psicóloga (1)